Mortes ligadas à Covid podem ser o triplo do total registrado no mundo, aponta estudo

Mesmo assim, ela explica que é necessário melhorar as informações sobre as mortes nos últimos dois anos

Samuel Fernandes
São Paulo, SP

Desde o início da pandemia do coronavírus, especialistas apontam para a existência de uma subnotificação dos óbitos. Agora, um estudo global estimou que as mortes podem chegar ao triplo do que foi registrado em vários países.

Contabilizando os dados oficiais de diversas nações, foram somados aproximadamente 6 milhões de óbitos. Mas, por meio de análises estatísticas, os pesquisadores estimam que essa cifra, na realidade, pode girar em torno de 18 milhões.

No Brasil, a estimativa é de que aproximadamente 170 mil mortes podem ter deixado de ser notificadas nos últimos dois anos –totalizando mais de 800 mil óbitos causados direta ou indiretamente pelo Sars-CoV-2.

Publicado na revista The Lancet, o artigo contou com a colaboração de alguns pesquisadores brasileiros, dentre eles Fátima Marinho, professora do programa de pós-graduação em saúde pública da Faculdade de Medicina da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).

“O objetivo de estimar o excesso de morte é avaliar o impacto da Covid na mortalidade populacional”, afirma a professora.

O estudo analisou o índice de mortes durante os anos de 2020 e 2021 e estimou o quanto realmente teria sido o valor para mais de 190 países e territórios.


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“Nossos achados indicam que o impacto total da pandemia tem sido muito maior do que o sugerido pelas estatísticas oficiais”, afirmam os autores no artigo.

No entanto, os pesquisadores não conseguem afirmar se esse incremento de mortes foi necessariamente causado pelo Sars-CoV-2 porque os dados disponíveis são muito escassos e incompletos.

Nesse caso, o que os pesquisadores apontam é que houve um incremento de óbitos durante a pandemia e, embora não seja possível afirmar que esse aumento foi ocasionado necessariamente pelo vírus, há uma grande probabilidade da mortalidade ter sido provocada pelo patógeno ou ter alguma relação com o estado que os sistemas de saúde se encontraram durante a pandemia.

“Além de causar diretamente a morte, a Covid tem um impacto indireto, como na sobrecarga dos serviços, maior dificuldade de acesso a centros de saúde e o medo das pessoas de irem ao serviço de emergência quando tem algum problema súbito em casa”, diz Marinho.


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No estudo, os pesquisadores apontam que alguns países, como Bélgica (32,8 mil mortes em excesso) e Suécia (15,3 mil), tiveram um processo mais rigoroso para contabilizar as mortes durante a pandemia e por isso não teriam o excesso de óbitos causados somente por Covid. No entanto, outras nações que não tinham um modelo tão apurado de testagem e registro podem ter sentido um incremento muito maior no excedente de óbitos especificamente causados pelo patógeno, como os casos da Rússia (1,07 milhão) e do México (798 mil).

Um exemplo de país que deixou de notificar uma grande quantidade de mortes é a Índia. Os dados da pesquisa mostram que as informações oficiais do país registraram quase 500 mil óbitos durante a pandemia, mas as estimativas feitas pelos cientistas são de aproximadamente 4 milhões.

Mesmo com problemas de notificação, o Brasil não figuraria entre os piores no quesito de notificação de mortes, afirma a professora. “Eu acredito que o sistema de saúde brasileiro respondeu bem em termos de registro e até de captura das mortes em excesso porque você consegue até contar [esse excedente]. Há países em que a situação da subnotificação é gravíssima.”

Mesmo assim, ela explica que é necessário melhorar as informações sobre as mortes nos últimos dois anos. Além disso, ela ressalta que, contabilizando as mortes registradas corretamente com a média de óbitos que foram subnotificados, há uma grande massa de pessoas que perderam suas vidas no país.


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“São quase 800 mil mortes evitáveis. As pessoas não deviam ter morrido, porque o que se esperava de morte era 800 mil a menos do que isso nesses dois anos de pandemia”, diz.

março 24, 2022

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