O mundo gira e, às vezes, capota

Acordei, normalmente, às 2h30 pra ir trabalhar. Era uma segunda-feira pós-plantão de fim de semana, que não tinha sido dos melhores. Ainda meio sonolento, eu não sabia se aquele peso na cabeça era vontade de continuar dormindo ou se era, mesmo, uma dor. Fiz todo o ritual pra ir pra TV.

Mas eu, realmente, não estava legal. Sentia o coração palpitando. Uma fadiga. Achei melhor não ir. Fiquei em casa, descansado. Passei o dia todo meio molenga. Fui trabalhar na terça-feira, já um pouco melhor, mas ainda em atenção.

Depois de terminar tudo o que tinha pra fazer, fui ao ambulatório da Record. Contei o que tinha acontecido e relatei que ainda estava sentindo um certo desconforto na cabeça. Eu já desconfiava que poderia ser a minha pressão arterial. Sou hipertenso há, pelo menos, cinco anos. Diariamente, tomo remédio e somado a isso pratico exercícios físicos e procuro me alimentar, relativamente, bem.

Era, mesmo, a minha pressão: 16×10, quando o ideal seria mantê-la em 12×8. Fui, prontamente, muito bem atendido. Fiquei em observação por uma hora mais ou menos. Dali do ambulatório, saí com dois dias de atestado pra tentar me cuidar mais, descansar e colocar o sono em dia.

Isso tudo foi na semana passada. Por isso, não dei as caras por aqui. Fiquei off da TV e do R7, inclusive. Agendei meus exames, “ressuscitei” meu aparelhinho de aferir a pressão e, desde então, tenho ficado mais vigilante. Não é a primeira vez que tenho um contratempo desse. Não é sempre, mas quando acontece, paro pra pensar em muitas coisas.

A gente vive acelerado demais. Você, com certeza, quer mais que esse texto acabe logo porque, certamente, deve estar atrasado pra fazer alguma coisa. O mundo anda girando mais depressa, parece. E, no meu caso, resolvi ser jornalista. Decidi virar repórter. O ofício, por si só, já exige uma rapidez sobrenatural. Diariamente, o trabalho testa as nossas emoções, os nossos pensamentos, a nossa agilidade.

Faz parte do jogo. O dia a dia na redação pra colocar o jornal no ar e a vida corrida na rua, que é a que eu mais estou acostumado, vêm carregados de desafios. É pressão pra todo lado e isso não é exclusividade de veículo A ou B. Cada qual tem sua loucura. Mas tem. Da hora que a gente entra (no meu caso, de madrugada) até a hora que a gente sai, acontecem inúmeras situações.

É a briga com o relógio. É o trânsito carregado. É a dúvida se vai ou não chegar ao local a tempo de entrar no ar. É a notícia sendo construída em tempo real. É o falatório no ouvido. É o frio na barriga do ao vivo. É a busca pela exclusividade. São os perrengues inesperados. A competitividade. São as histórias difíceis de contar. Algumas, difíceis de entender. É gente chorando. É bandido sendo preso. É acidente na rua. É o problema de fulano, o problema de ciclano. São os nossos próprios problemas. É coisa demais.

Somos de carne e osso. E uma hora ou outra, por mais forte que a gente seja, o corpo dá algum sinal de alerta. E aí, como é que resolve isso? Talvez, se olhando como ser humano também. Muitas vezes, a gente nem faz muito isso. E não é só na minha profissão. É na sua também, tenho certeza.

O meu trabalho é uma das coisas que mais me dão gás e combustível pra querer entregar mais. Eu amo o que faço. Amo o que escolhi pra ser a vida toda. Tudo o que vem com ele faz parte do combo. A mim e aos meus colegas que optaram por ser porta-vozes de tantas histórias resta buscar o equilíbrio necessário pra viver bem e continuar produzindo. Porque parar nunca vai ser uma opção. Pelo menos, não, sobriamente.

Resolvi escrever sobre isso porque não deixa de ser um bastidor. A vida real de um repórter – aquela que você não vê na tela nem nas redes sociais – é cheia de altos e baixos igual a vida de todo mundo. E pra gente poder entrar na sua casa, tem muita coisa acontecendo, muita gente correndo, muita conversa, discussão, adrenalina. Você não vê. Mas a gente sente.

março 31, 2022

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